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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Além de...

Gostaria de compartilhar com vocês a carta de um colega professor que, ao ser ofendido de um modo muito grosseiro e racista, soube ser superior à situação e produziu este belíssimo texto. Somente mentes brilhantes, de espírito elevado conseguem "dar o troco" de um modo tão inteligente. 
Ao meu caro amigo, Professor Jonas, meu abraço e apoio. 


ALÉM DE...

É interessante como todos os dias, quem lida com a educação sofre desafios. Eu, por exemplo, tive uma surpresa esses dias que me chamou a atenção. Dando aula, como sempre, com minhas brincadeiras que têm o intuito de ensinar e deixar a aula menos chata, fui ofendido numa discussão boba da seguinte forma: “além de nego, filho da puta”.

Apesar de o “filho da puta” não ser verdade, para os desinformados minha mãe não saiu da “zona”, o que mais me ofendeu foi o “além de nego” (entretanto, a palavra certa é negro), não porque minha cor seja uma vergonha, pelo contrário, mas por achar que o adjetivo “nego” possa ser uma coisa negativa, isso demonstra o nível de preconceito velado que nossa sociedade aflora na hora em que se sente ameaçada e,  a partir disso, eu fiquei pensando sobre minha vida e cheguei a algumas conclusões que queria compartilhar com todos sobre o que fui, sobre o que sou e sobre o que serei.

Além de nego, eu nasci pobre. Além de nego, eu fui (e sou) um filho de lavadeira. Além de nego, eu fui (e sou) um filho de carpinteiro. Além de nego, eu andei quilômetros para poder estudar quando eu não tinha dinheiro para pagar a passagem. Além de nego, eu fui servente de pedreiro para poder comprar roupa. Além de nego, eu fui pintor para sustentar minha família quando meu pai estava doente. Além de nego, eu trabalhei de jardinagem na UNIFOR para pagar meu cursinho e tentar passar no vestibular.  Além de nego, eu enfrentei tudo para fazer o que eu queria (ser professor). Além de nego, eu sou formado por uma universidade federal (que é o sonho de muitos). Além de nego, eu me tornei professor. Além de nego, eu fiquei gordo. Além de nego, eu passei num concurso público.

Além de nego, eu sou inteligente. Além de nego, eu tento ser uma boa pessoa para todos. Além de nego, eu respeito os outros. Além de nego, eu tento rir de todas as adversidades. Além de nego, eu tento ser responsável. Além de nego, eu tenho irmãos negros, eu tenho mãe negra, eu tenho amigos (e amigos-irmãos) negros, brancos e de todas as cores que um ser humano possa ter. Além de ser nego, eu me acho lindo. Além de ser nego, eu me acho o máximo.

Além de ser nego, eu quero me tornar a melhor pessoa possível. Além de ser nego, eu quero me apaixonar loucamente como se nada importasse. Além de ser nego, eu quero ter uma família linda (sei que isso é difícil, mas não custa tentar).

Além de ser nego, eu poderia dizer milhões de coisas sobre mim (mesmo sabendo que isso depende da forma como as pessoas olham para a pessoa que sou).

Mas uma coisa eu posso dizer apesar de qualquer coisa que pensem sobre mim:

ALÉM DE SER NEGO, EU SOU FELIZ!

Jonas Rodrigues.
 (Professor de português)

2 comentários:

Silviane Santos disse...

Professor, eu vejo que você, além de nego, é o máximo! E tem toda a minha solidariedade, respeito e admiração!

Profª Gláucia Nogueira disse...

Maravilhoso texto!!!! Parabéns ao professor negro, que pelo visto faz de suas aulas as melhores, pois esse texto traduz a sua excelência em ser educador e principalmente em ser SER HUMANO!
Abraço!

Profª Gláucia Nogueira
Liceu de Camocim

Obs: Peço permissão para publicar o texto no site de nossa escola.

E no meu blog pessoal:
www.trilhandosaberes.blogspot.com
www.liceudecamocim.blogspot.com