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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

E TEM GENTE QUE SE ACHA (Texto de Mário Sérgio Cortella)

Física Quântica: indicada para casos crônicos de falta de humildade.

Quando se pensa e se faz o trabalho como obra poética em vez de sofrimento contumaz, sempre vem à mente a questão do “trabalho digno”, isto é, aqueles ou aquelas que se consideram superiores como seres humanos apenas porque têm um emprego socialmente mais valorizado.
Aliás, é sempre nesses casos que entra em cena o famoso “sabe com quem você está falando?”
Um dia procurei representar uma possível resposta científica a essa arrogante pergunta, e, de forma sintética, registrei essa representação em um livro meu chamado A escola e o conhecimento (Cortez); agora, de forma mais extensa e coloquial, aqui vai este relato, partindo do nosso lugar maior, o universo, até chegar a nós.
Hoje, em física quântica, não se fala mais um universo, mas em multiverso. A suposição de que exista um único universo não tem mais lugar na Física. A ciência fala em multiverso e que estamos em um dos universos possíveis. Este tem provavelmente o formato cilíndrico, em função da curvatura do espaço, portanto, ele é finito e tem porta de saída, que são os buracos negros, por onde ele vai minando e se esvaziando. Até 2002, era quase certo que o nosso universo fosse cilíndrico, hoje já há alguma suspeita de que talvez não. Mas a teoria ainda não foi derrubada em sua totalidade. Supõe-se que este universo possível em que estamos apareceu há 15 bilhões de anos. Alguns falam em 13 bilhões, outros em 18, mas a hipótese menos implausível no momento é que estamos num universo que apareceu há 15 bilhões de anos, resultante de uma grande explosão, que o cientista inglês Fred Hoyle apelidou de gozação de big-bang, e esse nome pegou.
Qual é a lógica? Há 15 bilhões de anos, é como se se pegasse uma mola e fosse apertando, apertando, apertando até o limite, e se amarrasse com uma cordinha. Imagine o que tem ali de matéria concentrada e energia retida! Supostamente, nesse período, todo o universo estava num único ponto adensado, como uma mola apertada e, então, alguém, alguma força – Deus, não sei, aqui a discussão é de outra natureza – cortou a cordinha. E aí, essa mola, o nosso universo está em expansão até hoje. E haverá um momento em que ele chegará ao máximo de elasticidade e irá encolher outra vez. A ciência já calculou que o encolhimento acontecerá em 12 bilhões de anos. Fique tranqüilo, até lá você já estará aposentado pelas novas regras.
Você pode cogitar algo que a Física tem como teoria: ele vai encolher e se expandir outra vez. Talvez haja uma lei do universo em que o movimento da vida é expansão e encolhimento. Como é o nosso pulmão, como bate o nosso coração, com sístole e diástole. Como é o movimento do nosso sexo, que expande e encolhe, seja o masculino, seja o feminino. Parece que existe uma lógica nisso, que os orientais, especialmente os chineses e indianos, capturaram em suas religiões, aquela coisa do inspirar e expirar. Parece haver uma lógica nisso, a ciência tem isso como hipótese.
Assim, há 15 bilhões de anos, houve uma grande explosão atômica, que gerou uma aceleração inacreditável de matéria e liberação de energia. Essa matéria se agregou formando o que nós, humanos, chamamos de estrelas e elas se juntaram, formando o que chamamos de galáxias (do grego galaktos, leite). A ciência calcula que existam em nosso universo aproximadamente 200 bilhões de galáxias. Uma delas é a nossa, a Via Láctea, que é “leite”, em latim. Aliás, nem é uma galáxia tão grande; calcula-se que ela tenha cerca de 100 bilhões de estrelas. Portanto, estamos em uma galáxia, que é uma entre 200 bilhões de galáxias, num dos universos possíveis e que vai desaparecer.
Nessa nossa galáxia, repleta de estrelas, uma delas é o que agora chamam de estrela-anã, o Sol. Em volta dessa estrelinha giram algumas massas planetárias sem luz própria, nove ao todo, talvez oito (pela polêmica classificação em debate). A terceira delas, a partir do Sol, é a Terra. O que é a Terra?
A Terra é um planetinha que gira em torno de uma estrelinha, que é uma entre 100 bilhões de estrelas que compõem uma galáxia, que é uma entre outras 200 bilhões de galáxias num dos universos possíveis e que vai desaparecer. Veja como nós somos importantes….
Aliás, veja como nós temos razão de nos termos considerado na história o centro do universo. Tem gente que é tão humilde que acha que Deus fez tudo isso só para nós existirmos aqui. Isso é que é um Deus que entende da relação custo-benefício. Tem indivíduo que acha coisa pior, que Deus fez tudo isso só para esta pessoa existir. Com o dinheiro que carrega, com a cor da pele que tem, com a escola que freqüentou, com o sotaque que usa, com a religião que pratica.
Nesse lugarzinho tem uma coisa chamada vida. A ciência calcula que em nosso planeta haja mais de trinta milhões de espécies de vida, mas até agora só classificou por volta de três milhões de espécies. Uma delas é a nossa: homo sapiens. Que é uma entre três milhões de espécies já classificadas, que vive num planetinha que gira em torno de uma estrelinha, que é uma entre 100 bilhões de estrelas que compõem uma galáxia, que é uma entre outras 200 bilhões de galáxias num dos universos possíveis e que vai desaparecer.
Essa espécie tem, em 2007, aproximadamente 6,4 bilhões de indivíduos.
Um deles é você.
Você é um entre 6,4 bilhões de indivíduos, pertencente a uma única espécie, entre outras três milhões de espécies classificadas, que vive num planetinha, que gira em torno de uma estrelinha, que é uma entre 100 bilhões de estrelas que compõem uma galáxia, que é uma entre outras 200 bilhões de galáxias num dos universos possíveis e que vai desaparecer.
Quem és tu? Tu é o vice-treco do sub-troço!
É por isso que todas às vezes na vida que alguém me pergunta: “Você sabe com quem está falando?”, eu respondo: “Você tem tempo?”

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Vídeo em homenagem ao 60º aniversário sacerdotal do Papa Bento XVI

No dia 29 de junho deste ano, o Papa Bento XVI completou 60 anos de vida sacerdotal.
Veja o vídeo preparado em sua homenagem.

Jovens de se despedem do Papa, Madri, na JMJ.
A brasileira, Gisele, da Comunidade Shalom, faz o agradeciemento.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O corpo atrapalha quem quer ser santo?


Viajar de avião é uma barra! De cereal, é verdade, mas é uma barra! Ainda mais porque não se entende bem os letreiros de indicação. Onde está escrito push não é para puxar, mas para empurrar. Onde está escrito pull não é para pular, mas para puxar. E onde está escrito exit não é para hesitar, mas para pular.

Porém, hoje em dia não há outro jeito. Por causa da praticidade, é necessário relevar o pouco conforto da classe econômica das companhias aéreas, pedir a intercessão de todos os santos Dumont e encarar a viagem. Mesmo Deus, quando quis comunicar uma mensagem a Davi, enviou o profeta Natam.

No meu caso, tenho ainda que superar o temor. Morro de medo de avião. Por causa disso, só vou ao banheiro de uma aeronave em último caso, porque fico pensando que se eu morrer nessas condições, vou me sentir muito constrangido quando chegar ao céu. Lá muita gente vai se encontrar e, certamente, um vai querer saber do outro como foi que cada um morreu. Imagino alguém dizendo: “Morri num campo de batalha, defendendo meu país”. E outro: “Morri no seio de minha família, aconselhando os meus filhos”. E ainda outro: “Morri nos braços da pessoa que amava”. E eu? O que direi? Seria muito constrangedor apresentar-se com um rolo de papel higiênico na mão, anunciando o lugar onde estava quando o avião caiu.

Numa dessas viagens, entretanto, não agüentei e fui ao banheiro do avião. Talvez a falta de costume tenha contribuído para que eu me esquecesse de travar a porta. Não é que mais alguém achou de ir ao toalete justamente quando eu estava lá! Era um homem alto, mais alto do que eu. Mais forte também. Lembro-me bem de sua fisionomia. Ah! Como me lembro! Vestia um elegante terno preto e tinha aspecto de autoridade.

Quando aquele sujeito empurrou a porta, nunca me senti tão exposto. Sua aparência fez com que ressoasse em minha mente aquela musiqueta que caracteriza a ação do Batman. Só compreende plenamente essa situação quem já passou por algo semelhante. Aqueles segundos são eternos! Ninguém sabe o que colocar no meio daquele entreolhar repleto de constrangimento. Se sou eu no lugar dele, provavelmente diria: “Jesus te ama!” e fecharia a porta imediatamente. Mas daquele sujeito só saiu um forçado “desculpe-me” que não amenizou em nada a situação. E o pior foi ter que passar por ele no corredor do avião.

Mas aquele episódio desagradável me fez pensar seriamente sobre a condição do homem em relação ao seu próprio corpo. Mesmo que se considere o aspecto cultural, não há como negar que a nudez constrange porque o corpo é pessoa. O corpo não é algo que escapa ao indivíduo, mas é parte constitutiva dele. Isso significa que não se pode conceber uma pessoa sem sua dimensão física. De maneira que uma perfeita autodefinição exige que se assuma a corporeidade plenamente, sem preconceitos em relação a ela.

Conheço pessoas que preferiam não ter corpo. Acham que viveriam melhor sem os limites e as tendências de sua condição física. Tratam o próprio corpo de uma maneira muito perigosa: dissociado de si. Outros, pelo mesmo motivo, não se importam de expor o corpo demasiadamente, deixando de lado não só o pudor como a própria sobriedade e discrição. Essa atitude reflete o entendimento que têm a respeito de si mesmos, pois consideram o corpo como uma propriedade a ser usada conforme as decisões que tomam.

Mas o maior equívoco talvez seja o daqueles que consideram o corpo como algo desordenado à santidade. O corpo e sua constituição, seus limites e fraquezas e até suas tendências sexuais contribuem para a busca da santidade. Ele induz o homem a reconhecer sua condição humana. A força sexual que nele está presente é fundamental, por exemplo, para a constituição da família e até para a busca pelo relacionamento, ajudando a retirar o homem de seu próprio fechamento.

Alguns aspectos culturais presentes na sociedade, cada vez mais hedonista e erotizada, fazem pensar que a constituição física do ser humano não contribui com quem quer ser santo e renunciar aos prazeres desse mundo. Um olhar evangélico sobre a pessoa leva a perceber que a obra prima da criação de Deus – o homem e a mulher – é maravilhosa em todos os seus aspectos.

O pecado fez decair o corpo. Mas ele também foi redimido e reordenado à santidade. É suficiente tê-lo em conta de parceiro e não de inimigo, mesmo que para isso seja necessário impor-lhe alguns limites. Para que “tudo aquilo que sois – espírito, alma, corpo – seja conservado sem mancha alguma para a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Ts 5,3). Descobri isso no avião, mas confesso que preferia ter descoberto de outra maneira.

Ronaldo José de Sousa
Formador Geral da Comunidade Remidos no Senhor

Mudar de cara! Mudar de vida!

Há algum tempo venho observando como o conceito de “mudança” está sendo tratado nos meios de comunicação, sobretudo nos programas de auditório que vão ao ar nas tardes de domingo. Refiro-me às vezes em que os apresentadores escolhem uma pessoa comum – normalmente pobre, feia e maltratada – e lhes oferecem alguns benefícios estéticos, prometendo-lhes vida nova. Seguem-se sessões de cabeleireiro, massagem, lipoaspiração, maquiagem e até pequenas cirurgias plásticas que visam transformar a pessoa.

Depois de um bom “banho de loja”, a sortuda é apresentada ao palco como “nova”, arrancando os aplausos e a admiração do auditório. Para realçar, coloca-se um “antes e depois”, em que se escolhe a pior e a melhor foto.

Tomei um susto quando, num desses programas, a filha de uma felizarda exclamou: “Ela nasceu de novo!”. Essa frase explicitou a ideologia que está por trás desses quadros e que se alastra assustadoramente no mundo contemporâneo: a idéia de que mudando a aparência, muda-se a pessoa.

De acordo com essa mentalidade, mudar de cara é mudar de vida. Por isso, não é incomum ver pessoas alimentando sonhos de melhor adequar-se ao padrão de beleza atual, corrigindo algum defeito estético, implantando silicone ou simplesmente tornando-se mais apresentável. A motivação é quase sempre a mesma: mudar de vida. Nas novelas, multiplicam-se as personagens que “dão a volta por cima” através de uma mudança exterior. Com ela, tentam se livrar da frustração de um casamento mal sucedido, vencer a dor de uma traição ou adquirir visibilidade social. Numa palavra: buscam recuperar a autoestima, ou seja, sua própria dignidade como pessoa.

Não há como deixar de denunciar essa ilusão que está sendo criada. Ela comporta um risco imenso: o de que as pessoas pensem que é suficiente mudar a aparência para mudar de vida. Na verdade, não creio que os produtores desses programas levem isso ao ar de forma inocente, sem nenhuma intenção ideológica. O conteúdo desses quadros traduz a tendência atual de tratar as coisas com superficialidade, fugindo de toda consideração séria e aprofundamento das questões cruciais que envolvem a pessoa humana.

Promover uma mudança superficial era o que queria Nicodemos, aquele que se encontrou com Jesus na calada da noite. Ele perguntou ao Mestre: “Como pode um homem renascer sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no seio de sua mãe e nascer de novo?” (Jo 3,4). Note-se que a mentalidade de Nicodemos era carnal. Foi contra ela que Jesus investiu: “Em verdade, em verdade te digo: quem não renascer da água e do Espírito não poderá ver o Reino de Deus” (Jo 3, 5).

Mudar é realmente necessário. Mas a forma de faze-lo não pode se reduzir a alguns rebocos estéticos. A pessoa que não considerar isso com profundidade, pode estar caindo num grande precipício, ou seja, pode estar se deixando envolver por uma ideologia que a trata como corpo e não como pessoa. Sua frustração será ainda maior quando descobrir que seus esforços foram insuficientes para trazer-lhe auto afirmação.

Infelizmente, a TV não mostra os resultados subseqüentes de toda essa “transformação”. Para falar a verdade, eu também não gostaria de vê-los. Deve ser decepcionante que alguém seja recebido em seu meio social, totalmente novo por fora, mas o mesmo velho homem interior de sempre.

Uma mudança profunda, essa sim, é deslumbrante! Causa admiração. É resultado de uma ação discreta de Deus junto a uma ativa participação humana. Essa não se ver nos programas de domingo à tarde, mas podem ser vistas nas tardes de domingo, nos lugares em que Deus mesmo é o produtor do espetáculo da transformação.

Ronaldo José de Sousa
Consagrado de Vida e Formador Geral da Comunidade Remidos no Senhor