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sexta-feira, 29 de agosto de 2008

SOU UM CANTEIRO DE OBRAS: DESCULPE O TRANSTORNO

Logo no início da minha caminhada com Deus – deveria ter por volta de 15 (quinze) anos de idade – tendo vivido uma experiência pessoal de encontro com Jesus, comecei a participar ativamente da vida da Igreja. Havia uma vontade nova de buscar a Deus e conhecer mais esse “novo mundo” que me encantava a cada momento: estava vivendo aquilo que os mestres espirituais chamam de primeiro amor, ou seja, havia sido tocado, de fato, pelo amor de Deus. Amor incomparável e indescritível. O que posso dizer é que jamais havia me sentido amado daquele modo e, esta presença amorosa de Deus me impulsionava a dar uma resposta adequada, embora sempre aquém do amor que recebia, afinal, somos limitados e Deus sempre se supera em bondade e amor.
Esta resposta a qual me esforçava por dar a este Deus que me ama tanto assumia a forma de orações cada vez mais espontâneas e sinceras, assim como um novo modo de olhar e perceber o mundo a minha volta e também um novo modo de me relacionar com os outros. Tudo havia se tornado diferente. Muita coisa havia mudado. Acredito que era Deus mesmo a me transformar em um homem novo (cf. ef 4, 24) e a fazer de mim uma nova criatura (cf. II Cor 5, 17), à medida que mais e mais estivesse junto dele (cf. Jo 15, 4).
A este novo “jeito de ser”, ou novo modo de viver e relacionar-se com Deus, com os outros, com o mundo e comigo mesmo
, pode ser denominado espiritualidade. Ou seja, existe uma vida em cada ser humano que vai além da vida exterior, física, material. Existe uma vida interior que precisa ser cultivada e enriquecida por meio de orações e exercícios espirituais a fim de aproximar nossa alma cada vez mais de seu criador. Tais exercícios espirituais (ascese) devem gerar uma conversão sincera e uma prática cristã transformadora também da realidade à nossa volta conferindo uma autêntica sensibilidade aos nossos irmãos.
Esta vida interior – como diriam os mestres espirituais – em certos momentos assemelha-se à nossa vida exterior. Neste sentido, da mesma forma que é custoso formar nossa vida, a fim de obtermos a felicidade, tornando nosso existir mais saudável e pleno, do mesmo modo, faz-nos necessário compreender que temos uma vida espiritual, mas que esta também, exige de nós esforço e não pouco sofrimento para construí-la.
Utilizo este termo “construir”, pois é deste modo que imagino a vida espiritual: estamos sempre em construção. Em nossas metrópoles, constantemente percebemos uma obra sendo realizada aqui e acolá: seja um novo viaduto, um reparo da rede de esgoto, obras de metrô, seja mesmo um sem fim de “tapa-buracos” em nossos asfaltos.
Por isso, o termo construção se aplica muito bem à nossa vida espiritual, pois neste processo de descobrir quem Deus é, vou também descobrindo quem é o outro e quem sou eu. Mas esta descoberta também não se dá sem barulho, sem “quebra-quebra”, sem tumultos. Porque é um processo muitas vezes doloroso saber que eu não sou tão bom quanto minha família dizia que eu era. Porque vou descobrindo que o outro pode, tantas vezes, me ferir, especialmente quando concedo a ele esta faculdade. A construção aparece como um caminho de revelação das sujeiras da cidade, da confusão e do barulho. Mas, ao ser concluída, a boa obra completada, se mostra totalmente oposta à situação de caos inicial.
De modo semelhante, quando nos prontificamos a entrar nos caminhos do Senhor
[1], devemos nos preparar para encontrar o que há de mais sujo, barulhento e caótico em nossa alma, mas nunca deixando de lado a idéia de que o arquiteto[2] desta obra vê além e, no meio das confusão da obra ele consegue vislumbrar toda a beleza (ainda que potencial) que se esconde por trás de tudo isso.
Então, se, em algum momento e por algum motivo, magoarmos aos outros durante este processo de estruturação – mesmo aquele ente mais querido, ou a nós mesmos –, vale tomar emprestada uma frase que se encontra com muita constância em qualquer canteiro de obras de nossas cidades: “desculpe o transtorno, estou em construção”.

[1] Cf. Eclo 2, 1-6.
[2] Nenhuma alusão à concepção maçônica de Deus como arquiteto do Universo. O uso deste termo aqui empregado é simplesmente o do profissional de arquitetura, no sentido que este tem em sua mente o resultado final de sua obra. Enquanto todos vêem um amontoado de escombros, ele enxerga o belo da obra concluída.
FRANCISCO ELVIS RODRIGUES OLIVEIRA
Coord. Ministério de Pregação
R.C.C. Fortaleza

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